A noite no 11º Festival imagem-movimento

Texto publicado pelo Festival imagem-movimento:foto a noite 06

A mostra Quintessência está perturbadoramente deslumbrante! Serão 95 minutos de poesia visual, arte, conexão, hibridismos, filosofia, existencialismo, sensações inexplicáveis e dizeres que muito conversam com o profundo que há em nós. Se és do tipo que muito se atrai por qualquer coisa que muito te perturbe, essa mostra foi feita pra ti!”

“Tudo permanece no mesmo lugar, exceto nós mesmos… Exceto nós mesmos.” Ao som desta frase se inicia o “A noite”, (de Rodrigo Amboni) um dos filmes da mostra, uma produção que incomoda as pupilas, a mente, a alma… Personagens misteriosos nos levam com seus devaneios por caminhos labirínticos, sempre a encontrar com pessoas sem história mas com muito a dizer. Vozes e silêncios que ecoam e refletem no vaivém da cadeira de balanço, no focar e desfocar da lente que filma e da consciência de quem assiste. Presenças, ausências. Sonhos, vigílias…

“A confusão, a deriva, o mergulho, a solidão. Estranheza bonita. Poesia. Em muitos momentos, mesmo sem o enegrecer, se faz noite, a noite que há em todos nós: Escura (mesmo que clara), densa e misteriosamente inexplicável.
Para quem quiser saber mais sobre A NOITE, está na web a página, desenhada pela artista e animadora argentina Carla Moneta e programada por Verónica di Rago.”

Foto: Para quem quiser saber mais sobre A NOITE, está na web a página, desenhada pela artista e animadora argentina Carla Moneta e programada por Verónica di Rago. www.anoite.org

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Lindo texto de Flávio Dias sobre “A NOITE” publicado na revista de cinema Punctum

A Noite, de Rodrigo Amboni

Por Flávio Dias

Muitas coisas nos saltam aos olhos no filme A Noite, de Rodrigo Amboni. E os olhos parecem não ser instrumentos suficientemente densos para decifrar o veludo verde com que seu segundo curta-metragem nos presenteia. Mais do que o domínio espantoso da linguagem cinematográfica que Rodrigo já demonstrava em seu primeiro curta, de 2012, O Relojoeiro, e o tratamento quase alucinógeno com que maneia as histórias que conta, o que acende A Noite de Rodrigo é um cinema extremamente sensorial, hipnótico e de uma sensualidade rara e orgânica em cada plano. Sente-se, nos dedos e na pele, o roçar das folhas, o orvalho, e, sobretudo, o mar. Se O Relojoeiro era essencialmente urbano, A Noite é uma obra em que o horizonte não está nunca longe e Rodrigo parece ter-se encontrado filmando de uma maneira luxuriante as paisagens quase táteis dessa natureza que parece ter textura na tela, como uma carícia. Mais próximo do cinema de Lynch do que de Mallick, a natureza no filme de Rodrigo é território de sonho e de perda. A trama é ágil e não cai em contemplações inúteis ou maneirismos e o caráter perturbador dos elementos (a floresta, o céu, a areia, o mangue,  a barba dos personagens) tem algo de pacto com o invisível, que Rodrigo nos deixa pressentir em cada cena.
A precisão do som que como elemento não meramente auditivo, mas como fator de desequilíbrio narrativo e sensorial já era evidente n‘O Relojoeiro e, nesse seu segundo curta, atinge níveis vertiginosos, de doces calafrios impressionantes. O som é uma ilha que liga sensações no cinema de Rodrigo e dá ao filme uma atmosfera cheia de diferentes graus de realidade e casa-se, perfeitamente, com a beleza das imagens. Rodrigo filma o vento de forma rara, com maestria – nós o seguimos inquietos, temerosos e, sobretudo, maravilhados, como se estivéssemos à espreita de um gesto novo, descalços na floresta. Pouco sabe-se dos personagens além do que se mostra na tela: eles não tem profissão, carteira de identidade, CPF, e isso dá um tom de tragédia, de classicismo quase mitológico ou místico à trama. Rodrigo filma corpos, peles e o fantástico de cada dia, de cada amanhecer, ou melhor ainda, de cada anoitecer.
Sinestesia. Conceito complexo que Rodrigo rende simples. O sobrenatural ronda A Noite, mas o medo – sensação tão própria à mescla de sentidos e ao mais orgânico nosso – é uma presença física, quase uma carícia; um brinquedo raro. Rodrigo conhece a paisagem que filma e dela impregna-se no seu mais profundo âmago e isso traduz-se no seu estilo audacioso. O território em que se desenvolve a trama dessa história curta talvez seja o personagem mais vital dessa intriga de sonhos e de labirintos. O “espírito” das sombras, do céu, do chão, do mar, da noite é essa  entidade quase concreta que a película de Rodrigo toca sem pudores, mas com a delicadeza de quem ama o que filma. É preciso seguir o úmido noturno da trilha que percorre seu cinema, sem esquecermo-nos das margens distraídas do sonho a nos observar. Em A Noite uma força rói e destrói e, ao mesmo tempo, quer abraçar o estranho do espaço que habita. Sexo, amor, pulsão, possessão, uma vontade de possuir ou deixar-se ser possuído, algo que tem muito de febre, de suor e de alucinação e câmera de Rodrigo parece animada por essa mesma paixão febril, que ela observa de perto, colada ao corpo dos personagens, captando – como se a natureza se confundisse com esses corpos – cada movimento, cada gesto, cada tremor de pele, como se cheirasse a energia explosiva do que filma: essa inquietude constante de algo bonito e onírico que lateja.
 
* Flávio é autor e compositor no grupo Helvético-Brasileiro Prosa Poética.
 
Punctum – revista de cinema: http://www.punctum.ufsc.br/?p=1786
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Página web do filme A NOITE no ar!

Para quem quiser saber mais sobre A NOITE está na web a página, desenhada pela artista e animadora argentina Carla Moneta e programada por Verónica di Rago.

http://www.anoite.org

 

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A NOITE – TRAILER

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Cartaz saindo do forno!

Cartaz saindo do forno!

Arte gráfica de Carla Moneta

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novembro 2010

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Numa tarde depois da vida, a natureza estranha continuará, como se nada tivesse acontecido. Todos os rostos ao redor, completos desconhecidos, não derramarão nenhuma gota de lágrima enquanto ouvirem o choro das sementes. O uivo que vem de alto-mar avisa a chegada da chuva, uma chuva doce e tranqüila, que não pensa em provocar nenhum tipo de nostalgia ácida. A vida depois da tarde pode ser na varanda, balançando na cadeira e vendo o que chamamos de dia desaparecer imperceptível. Então o que enxergamos são formas que se concretizam pelos sons que nos acariciam os ouvidos, dizendo-nos de forma tranqüila e serena que tudo permanece no mesmo lugar, exceto nós mesmos.

Para chegar ao farol, um velho pescador me disse que é preciso sonhar e deixar com que a solidão me envolva com seus tentáculos úmidos e gelatinosos. Não foi preciso entender o que ele quis me dizer.

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10 de outubro de 2012

Quando faço as coisas no escuro, os dias cinzas transformam as cores dos meus olhos e, como costuma acontecer, faço chover chuva fina e envolver a atmosfera em espessas e intensas camadas de nuvens que retiram qualquer esperança do sol. Não pode ser coincidência se antes minhas palavras são tão frágeis e escorregadias nos dias de noites sem vento, que penso que poesia nunca existiu. Não pode ser coincidência que quando faço as coisas no escuro a morte se ilumina de uma beleza monumental e o tempo me esgarça tecendo ao reverso os desmanches da alma em linhas com as texturas de minhas pequenas loucuras. Quando faço as coisas no escuro é porque desejo o escuro de mim, o mais escuro de mim, a mais longa distância do meu próprio escuro…

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Abril 2013

ImagemPreparo-me preguiçosamente para aprender a escutar esses novos sons que infiltram-se nesses insones dias de ilha. É quando as coisas ficam sem cheiro que os odores invadem meu corpo e o mar, que escuto do meu quarto, é um sem sentido de necessidades-sensações que não se aprendem nem se adquirem, apenas me possuem, como também a mim um dia de inverno de sol suave e ar seco. O céu, as vozes distantes, uma sensação-lembrança de um dia já distante que acontece agora, embaixo d’água, embaixo dessa outra camada da vida, de algum lado esquerdo do corpo, de algum leve roce de mãos…

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Às oferendas de Maria Gabriela Llansol

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16 de junho 2011 – La Plata

para Hölderlin.

“O poema continua assim:
via-a de costas, ainda nua: hesitando
entre a hora mágica e a flauta bacana:
porque o autor divino hesitava de verdade:
entre dar-lhe forma até o fim,
ou deixá-la partir inconclusa, para a seduzir depois”

No pensamento do personagem, Rubens, paira essa dúvida que é a mesma que a minha; mas a questão não é saber se dar forma até o fim e sim até quando modelar esse texto, essa narrativa sem fim. Desfazer e refazer antes mesmo de algo fazer: a forma existia antes da forma. O que fica no final são as ruínas da alegoria. Essa narrativa não acabará nunca, preciso apenas perceber o momento em que pulo fora para ela continuar sozinha. Nela apenas é preciso permanecer as manchas das formas anteriores. Assim o tempo descontinua…

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Março de 2013

“La ciudad donde nací y me crié. La ciudad
donde todo ocurrió. Me escapé, pero no se
puede huir del paisaje de nuestros sueños. Mis
pesadillas todavía ocurren en las calles de…”

Quando terminamos de filmar um plano em frente a Paróquia Santo Antônio, paróquia na qual me confessei pela primeira vez, festejei e avisei a todos da equipe que havíamos terminado o filme. A partir daí os acontecimentos passaram a ficar confusos e fragmentados. Primeiro lembro que estávamos todos numa grande mesa comendo e bebendo. Já éramos poucos, mas Chico ainda continuava falando para si com a mesma expressão e os mesmos gestos desde quando falei que terminamos o filme. Uma expressão de quem está calculando. Lembro de que essa mesa estava dentro de um alojamento da igreja e que aí tinha ainda minha mochila e vários outros pertences. O lugar estava desordenado, era provavelmente o quarto onde dormia toda a equipe durante as filmagens, pois tinha vários colchões amontoados e uma ou outra coisa que as pessoas esqueceram ou abandonaram. Mer pergunta pelo meu tênis, um tênis preto com linhas azuis, que já não uso mais. Olho para os meus pés e percebo que estou descalço. Olho para ela e respondo que não sei. Desço a rampa da escola de minha infância, passo pelos cantos mais isolados que costumava passar o recreio com meus amigos. Não encontro o tênis. Volto para o alojamento. Chico é o único que permanece sentado na mesa. Ele continua se questionando em silêncio, como se algo não estivesse fechando com as suas contas. Carol, em pé na porta, fumando um cigarro, despede-se de Mer, que fecha a porta e senta-se ao lado de Chico com o plano de produção nas mãos. Vou até o colchão onde estão minhas coisas. Vejo minha mochila e ao redor dela meus grafites 0.5mm espalhados pelo chão. Muitos deles estão quebrados. Seleciono os melhores e coloco novamente na mochila. Reviro algumas roupas procurando pelo tênis e acabo encontrando um roteiro do filme todo rabiscado. Pego o roteiro e começo a folhear. Sinto um terror profundo e grito: FILMAMOS APENAS AS CENAS INTERNAS, FALTA AINDA FILMAR TODAS AS EXTERNAS! Chico levanta-se bruscamente, bate com as duas mãos na mesa e grita: EU SABIA! Vejo-me conversando com Chico e Mer, mas não escuto o que estamos conversando, apenas sinto que eles estão me explicando que será impossível juntar toda a equipe novamente para filmar as cenas que faltam. Volto desolado para a escola e enquanto desço a rampa pensando que faltou filmar as cenas mais importantes do filme, uma mulher que está subindo a rampa me pede um cigarro. Eu dou um cigarro para ela e enquanto busco o isqueiro ela me fala com calma: tu esqueceste de filmar as cenas externas. Pergunto para ela sobre o meu tênis, mas ela continua subindo a rampa e não me responde. Penso em Mer, em onde ela pode estar. Continuo caminhando pela escola, atravesso a quadra poliesportiva de cimento e chego aos fundos da escola, onde tive aulas na primeira e na segunda série do primário. Entro em uma das salas, sento numa das cadeiras, debruço-me sobre a mesinha e olho para fora através da janela. Vejo um  jardim florido, o que estou buscando para a filmar a sequencia 01, plano 04.

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